Orçamento federal é a verdadeira caixa-preta do Brasil, diz Haddad
Foto: Rovena Rosa/AgĂȘncia Brasil
O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, disse nesta terça-feira (25) que o governo federal vai terminar ainda neste ano de divulgar todos os incentivos fiscais dados ao setor privado, inclusive por CNPJ das empresas. Segundo ele, no ano passado, o Executivo mapeou R$ 200 bilhĂ”es de renĂșncias.
Â
Em evento organizado pelo banco BTG Pactual, do bilionĂĄrio AndrĂ© Esteves, Haddad disse que o Orçamento federal Ă© uma caixa-preta e que Ă© necessĂĄrio transparecer os benefĂcios fiscais do paĂs.
Â
"Isso Ă© muito importante, porque se falava muito de caixa-preta do BNDES e abriram a caixa-preta e nĂŁo acharam nada, porque no BNDES tudo foi sempre transparente. [...] Onde tinha caixa preta? No Orçamento", afirmou. "A verdadeira caixa-preta que existe no Brasil Ă© o Orçamento Federal; do ponto de vista de despesa Ă© menor, mas do ponto de vista de renĂșncia de receita Ă© um escĂąndalo."
Â
"VocĂȘ combate lobby com transparĂȘncia e mobilizando a opiniĂŁo pĂșblica [...] No ano passado nĂłs terminamos com cerca de R$ 200 bilhĂ”es por ano mapeados, empresa por empresa. Quem estĂĄ na Zona Franca [de Manaus], quem estĂĄ nĂŁo sei onde, quem tem uma lei especĂfica, quem botou um jabuti em uma lei particular, tudo estĂĄ sendo mapeado e estĂĄ na internet."
Â
Em 2025, o governo vai abrir mĂŁo de arrecadar R$ 543,7 bilhĂ”es com a concessĂŁo de benefĂcios tributĂĄrios a empresas e pessoas fĂsicas, valor equivalente a 4,8% do PIB (Produto Interno Bruto) ou 24% da arrecadação do governo. O montante representa um aumento de R$ 20 bilhĂ”es em relação ao valor estimado de renĂșncias no ano passado.
Â
Nesta terça, a Folha divulgou que o Brasil estĂĄ em sĂ©timo lugar no Ăndice Global de TransparĂȘncia de Gastos TributĂĄrios, que reĂșne 105 paĂses. O Brasil vai bem em aspectos como acessibilidade dos dados, prestação de contas e facilidade de compreensĂŁo sobre esses benefĂcios fiscais. Por outro lado, vai mal nos aspectos que tratam da avaliação dos resultados trazidos por essas polĂticas de incentivos âquestĂŁo que aparece como o ponto fraco de praticamente todos os paĂses analisados.
Â
Para Haddad, parte dessa renĂșncia vem de pressĂ”es polĂticas de setores privados, que conseguem alterar propostas do governo em pautas de equilĂbrio fiscal. "O Congresso nĂŁo entregou 100% da conta fiscal, porque muita gente se mexeu fora do Congresso para que isso nĂŁo acontecesse e, para a surpresa ingĂȘnua de alguns, eles sĂŁo os que mais reclamam da falta de ajuste fiscal", disse.
Â
"Tem muito problema na classe polĂtica, mas tem muito problema tambĂ©m em parte do empresariado que nĂŁo Ă© moderno, que Ă© patrimonialista, que vive de benesses, que vive de lobby e que vive de privilĂ©gio", acrescentou. "O nosso desafio Ă© enfrentar essas pessoas", complementou em outro momento de sua fala.
Â
Ainda nesta terça, Haddad minimizou o aumento do dĂłlar no final do ano passado e a crise fiscal do governo nos Ășltimos meses. Segundo ele, o Orçamento de 2023 previa uma receita primĂĄria de 17% do PIB, e o governo conseguiu subir para 18,3% no ano passado âo dado ainda nĂŁo foi divulgado oficialmente. AlĂ©m disso, o gasto primĂĄrio teria caĂdo de 19,5% do PIB para 18,6%, incluindo as despesas com a tragĂ©dia no Rio Grande do Sul.
Â
"Quando vocĂȘ olha o filme, nĂŁo sĂł a fotografia, vocĂȘ tem uma outra impressĂŁo do que estĂĄ acontecendo no Brasil. O olhar externo sobre o Brasil, de agĂȘncias de risco, FMI [Fundo MonetĂĄrio Internacional] e os prĂłprios fundos soberanos e gestoras internacionais Ă© um pouco diferente da visĂŁo domĂ©stica do Brasil, da imprensa e dos investidores locais, mas eles nĂŁo tĂȘm a força que os domĂ©sticos tĂȘm, entĂŁo ficam aguardando um pouco", afirmou o ministro. "Ă como se eles aguardassem a gente a se entender internamente para depois tomarem a decisĂŁo de investimento."
Â
Haddad insistiu que a Fazenda tentarå aprovar, ainda em 2025, todas as 25 iniciativas da pasta para este ano. Como a Folha reportou, essas medidas visam melhoria do ambiente de negócios, a estabilidade macroeconÎmica e o plano de transformação ecológica do governo. Ele também destacou a nova modalidade de empréstimo consignado privado a ser lançada pelo governo nas próximas semanas, a qual chamou de revolução.
Â





